quinta-feira, 8 de julho de 2010

Recomeçar

Era seu aniversário. Dezesseis anos. Com tantos motivos para comemorar, havia algo que a machucava. Por trás daquele sorriso meigo e olhar brilhante escondia-se uma enorme frustração - estaria completando um ano de namoro se não fosse aquela briga e tamanho orgulho de ambos.
Preferiu esquecer o passado. Pelo menos naquele instante. Era um bom momento para apagar da memória tudo que a fizera sofrer. Recomeçar era a palavra certa.
Ria com suas amigas no sofá da sala. Não havia terapia melhor.
A campainha tocou. Provavelmente era mais uma delas. Ou talvez, a pizza que pediram alguns minutos antes. Ao abrir a porta, aquele sorriso meigo desaparecera. Somente o brilho no olhar continuara ali, ainda mais forte. Sem piscar, analisava cada detalhe. Cada detalhe daquele que um dia fora seu. Ele a abraçou fortemente, era tão bom tê-la por perto. E aquele sorriso meigo voltou, ainda mais vivo. E ficaram ali - abraçados - sem dizer nada. Ouvia-se, somente, o som de sua respiração ofegante.
- Promete nunca mais me abandonar? - Uma lágrima escorrera pela sua bochecha. Uma lágrima de saudade.
- Prometo.
Ela nunca se esqueceria daquele momento. O seu melhor presente estava bem diante de seus olhos. E realmente, recomeçar era a palavra certa.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Nada é pra sempre

Era como se Alice tivesse deixado com ele, após o beijo, todo aquele mel que até então pertencia a ela. E seu nome – antes, tantas vezes pronunciado – ele nem se lembrava mais. Agora ele poderia ter a menina que quisesse. Alice seria somente mais uma.
Deitada sobre a cama, ela lutava contra seus pensamentos. Não queria sonhar novamente com ele.
Estava cansada. Cansada de tentar fugir e sentir-se parada. Naquele momento ela estava em conflito com ela mesma. Não podia valorizar quem nem sequer lembrava de sua existência. Era injusto com ela, era injusto com seu coração. Ela sabia disso.
Aquele garoto - do beijo inesquecível - já não era mais o mesmo. Fugira com seu mel.
Alice queria paz, apagou de sua vida tudo que fazia lembrar daquilo que queria esquecer.
Nada é pra sempre. Ele aproveitara o mel de Alice até a última gota. Sentiu-se sem rumo. Durante tanto tempo ele teve todas e ao mesmo tempo nenhuma. Nunca fora valorizado... Somente por Alice. Sim, ela seria a garota certa.
Porém, era tarde demais. Nada é pra sempre, nem o amor de Alice.

Por menor que fosse

Dessa vez, ela preferiu ouvir seu coração. Aquela garota, tantas vezes fria e consciente de seus atos; ou talvez não, não naquele dia. Ela definitivamente não era a mesma. Resgatou aquele pouco de esperança que restava e apostou com todas as forças no sentimento que ele ainda tinha por ela - por menor que fosse - ela sentia que existia. E foi atrás dele. Olhando fixamente para aquele rosto, que um dia, bem distante daquele, poderia ter pertencido somente a ela. Olhando para aqueles olhos, ela sentia-se hipnotizada. Como o mundo dá voltas. Um dia era ele, agora era ela. Os olhos daquela menina brilhavam; estava estampado para quem quisesse enxergar: ela estava feliz apenas por estar ao lado dele. Aquele brilho no olhar confundia-se com as lágrimas que ameaçavam cair, mas que por mais intenso que estivesse sendo aquele momento, ela se segurou. E sem conseguir dizer nada, apenas o abraçou.

Mixed feelings

Sentada de frente para os dois, quase sem piscar, ela analisava aquela cena. Aquilo bastava para ela. Levantou-se, puxou uma amiga pelo braço e juntas foram ao banheiro.
Banheiro de festa é como um confessionário para meninas. Contou tudo que estava sentindo para a amiga e quando se deu conta, uma lágrima envolvendo muitos sentimentos confusos escorreu pela sua bochecha, borrando seu rímel. Num gesto de amizade a amiga a abraçou; disse aquelas frases clichês que todo mundo já conhece, mas que fazem uma enorme diferença nessas horas. Vá curtir a festa! A garota ajeitou a maquiagem, passou as mãos no cabelo e como um adeus àquela tristeza olhou para o espelho, sorrindo para ela mesma. Obedeceu a amiga.

Querendo esquecer

Deitada sobre aquele travesseiro - o mesmo que já havia presenciado, bem de perto, todas as lágrimas daquela menina – ela chorava, se inundando na poça que ela mesma criara sobre a fronha. Era choro de desilusão, era choro de saudade.
Cometera o mesmo erro. Erro. Era isso que ele representava. O único erro que ela gostava de cometer. O único erro em que ela persistia. E persistia porque a fazia sentir bem. Era um erro preenchido por esperanças de que a levaria ao caminho certo. Doce ilusão.
Sobre aquele travesseiro ela chorava, querendo esquecer.